Quando a costureira deslizou-o pelo corpo dela ele sentiu o calor que emanava da pele sedosa. Ela, sentindo talvez o quanto este primeiro contato era importante para ele, deslizou as mãos suavemente pelo tecido macio. “Vai ficar bom, não vai?'” Claro que vou, ele quis responder. “Claro, minha querida” repondeu a costureira.
Quando ela se foi ele sentiu-se sozinho e abandonado. Deixaram-no na caixa, apagaram as luzes, era noite. E ele sonhou com ela, com o toque de sua pele quente e macia, o contato dos seus dedos longos.
Quando se viram pela terceira vez ele estava ainda mais ansioso: agora ele já tinha forma, tinha lindos bordados, trabalharam nele por muitos dias, furaram-no e alisaram-no tanto que chegara a doer. Mas valia cada sensação ruim, afinal ele era dela, e por ela faria tudo.
Ao vesti-lo ela ficou feliz, radiante de tão feliz! “Ah, que lindo!” Ele sentiu-se realizado. “Aperta mais um pouquinho aqui?” ela pedia…
E os dias foram se sucedendo… até que uma tarde vieram buscá-lo com um cuidado maior. Última prova, ele ouviu. Seu coração disparou: como assim? última? Nunca mais? Quis gritar, pedir a ela que não o deixasse, que viesse mais vezes, que não o abandonasse…quis gritar que morreria sem o toque da pele dela.
Ela o vestiu, ou melhor, vestiram-na com ele. Ela estava nervosa, será que sentia a última vez? “Tem certeza que não precisa apertar?” parecia pedir por mais um encontro. Ela sentia o mesmo que ele!!! Será que não viam? “Não, está certinho. Apenas não emagreça ainda mais”. E ele teve certeza que ela sofria por ser a última prova, a derradeira vez dos dois.
Então o pegaram e o puseram em uma linda caixa. Fecharam. Ele foi levado. Sentiu-se chacoalhar, depois sentiu-se acomodar. Abriram a caixa: era ela! Ela o levara consigo! Ah, como ele estava feliz! Feliz!
Então, dois dias depois ela apareceu. Ainda mais linda do nunca, a pele macia com cores e brilhos novos, os lábios pintados e os cabelos arrumados. Uma mulher mais velha, parecida com ela, o pegou e o vestiu nela. Ah, ela nunca estivera tão linda…
Entraram juntos em um carro. Depois desceram. Um homem a ajudou a sair, o mesmo que a ajudara a entrar. Cuidadoso: “Olha o vestido, filha!” Sim, todo o cuidado com ele, gostavam dele… que felicidade! Então o homem a segurou pelo braço e caminhou com ela por um enorme corredor ladeado por muitas pessoas que ele nunca vira. E que nunca o viram: “Que lindo!”, “Que vestido maravilhoso!”. Ele estava feliz.
Então pararam, um outro homem sorriu para ela, alguém disse muitas paolavras, nenhuma sobre ele. E o homem que sorriu para ela caminhou com ela de volta pelo mesmo corredor imenso. Entraram no carro, ele a beijou. Quem era ele?
Então houve uma festa. Todos diziam que ele, o vestido, era lindo. Algumas pessoas até o alisaram, tocaram. Ele se encolhia, com receio de ficar sujo e desgostar à ela.
Depois foram embora, a noite já ia alta. Chegaram a um quarto estranho. E o moço sorridente a segurou nos braços. Que bom, o vestido pensou… ela está cansada, eu acho… E o moço sorridente a levou até a cama no meio do quarto. Começou a desabotoar o vestido, entre beijos. Ele, o vestido, estremeceu ao sentir-se afastado da pele dela. Foi tirado e colocado em uma poltrona. As luzes apagaram.
Na manhã seguinte ela acordou tarde. Olhou para ele com amor, o mesmo amor de antes, talvez mais. Pegou-o, encostou nele o rosto. Uma lágrima rolou, uma lágrima de amor. Ele, o vestido, também chorou. Tivera tanto medo de perdê-la, mas ela estava de novo com a atenção nele.
Caminhou com ele até um enorme armário e lá o pendurou. Fechou as portas, e ele ficou sozinho, no escuro. Roupas estranhas o olhavam do outro lado do armário.
Nunca mais ela o vestiu. Os anos passaram, e ele sempre esperou. De vez em quando ela o tirava de lá, de seu lugar de solidão. Olhava, com afeto até, mas jamais ele sentiu sua pele outra vez. Só os dedos frios e longos.
De tanta solidão ele perdeu a cor tão bonita. Nunca mais ela o vestira… e ele sempre a esperar…