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7 de dez de 2012

Prosa da Curva








Adoro a arquitetura de Oscar Niemeyer. A engenharia, todavia, já não sei se é tão genial.

Trabalho em uma de suas obras monumentais. Um prédio redondo, todo de vidro. Um não, dois. Seus vidros são predominantemente azuis, mas ficam da cor do céu. Ou seja, quando está nublado os prédios ficam acinzentado.

Quando o ar está empoeirado, ou cheio de fuligem por causa das queimadas do cerrado, queimadas essas favorecidas pelo clima seco do Distrito Federal, o prédio fica cor-de-fogo ao entardecer. Magenta. Com as  matizes do crepúsculo.

Mas a arquitetura é moderna. Parece que o material foi feito no 3D Studio com o Faceted ligado. Não é um espelho perfeito, plano. Não. Parece mais que o prédio é uma lantejoula vista de perto. Pixelada.

Um flutua sem pilotis. Apenas com uma grande coluna central. Oca. Que abriga o hall dos elevadores e a distribuição para as salas. O que faz com seus ocupantes fiquem eternamente perdidos tentando matematizar  indagando qual seria o caminho mais curto para se chegar ao destino.

Para acabar de deixar os transeuntes com uma sensação kafkaniana, a organização dos elevadores agora respeitam um regime onde todos os oito elevadores vão do subsolo (-1) até o primeiro andar, passando pelo térreo e mezzanino. Três chegam também ao segundo e terceiro andar, mas não dali para cima. Três não chegam no segundo e no terceiro andar, mas atende ao quarto, quinto e sexto andar (cobertura). Um atende a todos os andares e é preferencial para deficientes. E um é de serviço dentro do horário, digamos, comercial.

E esse regime vem mudando de seis em seis meses, parece que nunca chegam em um acordo.

Com certeza os colaboradores desse complexo jamais terão Alzheimer. Mas a culpa não é do lúcido Niemeyer.

A obra de Niemeyer é para se admirar e tentar decifrar como uma pintura abstrata. Do tipo que o expectador se pergunta: qual será o sentido psicológico disso tudo?
Museu da República

Em uma das entrevista reprisadas em virtude de seu passamento, ele dizia, com simplicidade a respeito do Museu da República (uma calota branca com uma rampa suspensa que trespassa o prédio no melhor estilo Os Jetsons):

O sujeito vem e pergunta: - Que m... é essa?
Disse ele em alusão ao estado de perplexidade das pessoas diante do monumento na Esplanada dos Ministérios. Nesse momento tive o insight que me fez compreender tudo. Os prédios em forma de cilindros são como dois rolos de papéis higiênicos, um em uso e o outro na reserva. Para limpar a sujeira advinda da Praça dos 3 Poderes e dos Ministérios. Elementar como uma coluna reta.

Hmmm... Como é perspicaz. E sua obra é tão integrada com a natureza que por causa dela molhamos nossos pés durante a chuva, devido a ausência de um meio eficaz de escoamento da água da calçada. Calçada essa com a acessibilidade implementada, para garantir que as pessoas com deficiência também tenham seus pés totalmente integrados com as frieiras. Com prova maior de integração com o meio, alguns pássaros também se chocavam contra essa janelas celestes. Mas conta-se que já instalaram alguma coisa para resolver esse pequeno inconveniente ambiental.

E como é bom sentir o frio durante as chuvas e o calor tropical durante as tardes ensolaradas pois o ar-condicionado sofre de um problema de má distribuição. Quem se sentar perto das janelas, apelidadas de "grelhas" pelos criativos colegas, sente uma forte radiação infra-vermelha, excelente para o relaxamento muscular. É muito simbolismo. Mesmo o trabalho mais intelectual recebe doações literais de suor.

Segundo um técnico que cuida das tubulações, não há uma solução possível para determinadas salas (todas em forma de fatia de pizza, comportando duas mesas no começo e umas três na "grelha") pois uma viga impede que os tubos cheguem até as janelas. Impossível para ele, pobre mortal. Porque se Niemeyer fosse engenheiro em vez de ser arquiteto...

Agora os colaboradores, estimulados pelos corredores infinitos, perfeitos para os peripatéticos atenderem seus celulares, quebram a cabeça para arrumar espaço interno para acomodar mais gente, muitas vezes, fazendo as salas invadires os tais corredores, quebrando o circuito. Na verdade, o pessoal administrativo vai migrando aos poucos para anexos mais retangulares. Onde não há área verde de sobra e sem sombra, mas as salas são retas e com cantos de 90 graus. Aproveitando todo volume interno com os móveis tradicionais.

Adoro o efeito psicológico e o simbolismo do lugar. É uma vitrine do que o Brasil tem de melhor, que não combina em nada com 7 meses sem reajuste. É utópico como utópico é o comunismo desse gênio da arte. Que não tem culpa do que tramam nos gabinetes de suas obras. Mas que é tão excepcional, que sua invenções dispensam licitações e foram viabilizadas por aqueles que mais impediram o seu sonho de um mundo mais justo.

E como um jóquei que repudia a exploração animal, Oscar viu da vida a beleza do concreto curvo e poderosos ávidos por deixarem seus nomes entalhados em sua poesia espacial. Na justa e vã intenção de atingirem a imortalidade. De legar algo sublime a um mundo tão desigual. Oscar fez a parte dele. E fez no mundo todo.

Como já frisei, o problema não é sua arquitetura. É a engenharia que nem sempre provê a solução necessária para os problemas de quem habita ou trabalha em uma obra de arte. Afinal, o criador não deve se deixar podar pelas limitações do executor.
Eu o admiro. Tanto pela sua obra quanto pela capacidade de realizá-las. Alguém que trabalhava com o que gostava, talvez parte do segredo de sua longa jornada terrestre.
Vá com Deus camarada. Com certeza ele botou a maior fé em você. Você soube viver.







Poema da Curva

   Não é o ângulo reto que me atrai.

      Nem a linha reta, dura, inflexível,
         criada pelo homem.
           O que me atrai é a curva livre e
        sensual. 
    A curva que encontro nas
  montanhas do meu país, 
no curso sinuoso dos seus rios,
 nas nuvens do céu, 
  no corpo da mulher amada.
    De curvas é feito todo o universo.
      O universo curvo de Einstein. 


             Oscar Niemeyer


[Via BBA]